terça-feira, 10 de abril de 2012

Os Ponteiros do Tempo

Os ponteiros do relógio

andam em seu ritmo contínuo,

indicando aos observadores

que o passar do tempo

deixa pra trás

as oportunidades de retomar

aquilo que se esvai,

que escorre

como a areia,

de uma ampulheta quebrada,

por entre os dedos.

O tempo que passa

não volta atrás

e qual, um mestre implacável,

não ensina duas vezes

a mesma lição.

Os ponteiros insistem em andar

tranquilos,

sem a pressa habitual

que toma a vida

dos homens que,

não conhecendo

a paciência do tempo,

veem passar momentos,

momentos ricos

para que palavras mudas

voltem a soar,

ainda que não ecoem

em ouvidos egoístas

de pessoas que,

mesmo com o passar do tempo,

insistem

em não aprender,

ou não conseguem

enxergar aquilo,

que como

os ponteiros girando,

está a um palmo

do seu nariz.


sábado, 7 de abril de 2012

A vida me cansa...

Tem horas

que a vida me cansa...

me cansa,

quando tenho que repetir sempre

as mesmas palavras

que, de tanto pronunciadas,

já secaram na garganta.

Palavras

que perderam o sentido,

uma vez que foram ouvidas

por ouvidos frios,

vazios e egoístas

de quem não busca mudar,

alçar novos voos e atitudes

em prol de algo

que se esperava construir.

A vida me cansa

quando observo

que as lições aprendidas

ou ainda ensinadas,

de nada adiantaram,

ou então bateram em

pedra fria, cinzenta

que insiste em manter-se

firme ali,

longe de tudo,

impedindo passagens e

atrapalhando caminhos,

com a teimosia

ou a ignorância teimosa

que insiste em medir forças

com a suavidade do vento

ou da água

que não desiste de bater.

Queria ser como a água,

insistente,

firme em seu bater,

mas me faltam forças,

pois cansado da vida,

prefiro seguir em frente,

desviar o caminho

e retomar o meu caminho,

aquele que fiz sozinho,

e que talvez não devesse

ter abandonado.

Estou cansado...

a vida me cansa.


quarta-feira, 4 de abril de 2012

Quebrando

Pare,

escute...

Algo está se quebrando!

Será que ainda

há tempo de impedir

a quebra, o rompimento?

A resposta não pertence

a quem indaga,

mas muitas vezes,

àquele que causou tal questão.

E esse alguém,

muitas vezes,

não percebe o quanto contribui

para que a quebra se dê.

Se atitudes podem trazer quebras,

da mesma forma,

são elas que podem impedir

que algo se quebre.

Atitudes porém,

muitas vezes,

deixam de ser tomadas,

por orgulho,

distração ou ainda

por comodismo.

Se não quer que se quebre,

o que espera para

fazer algo que

impeça este quebrar?

Quanto tempo esperará

para se arrepender,

ao ver quebrado

aquilo que não deveria quebrar?

O tempo que passa,

deixa lições,

ainda que mudas,

que podem transformar

aqueles que realmente

querem aprender.

Escute,

outro som...

talvez a quebra esteja

mais próxima

e seu tempo esteja chegando ao

fim.


terça-feira, 3 de abril de 2012

Perdas

A perda da voz,

da vez,

do voo,

da vida,

dos sonhos...

São tantas perdas

vividas, sentidas

que algumas perguntas

ficam na alma.

Se perdas são necessárias,

se precisamos passar por elas,

por que doem tanto?

Por que fazem sangrar a alma?

Acredito que seja

porque, dentro das perdas,

está a perda dos sonhos...

e esta perda,

mais do que as outras,

faz morrer no mais íntimo do ser

a vontade de seguir em frente,

de falar...

faz morrer as palavras

que ecoavam na voz,

na vez,

na vida,

que cansada de sonhar,

de falar,

de vibrar,

procura no sono,

na letargia da alma

o sentido

das palavras

que se tornaram vazias,

nos ouvidos moucos

que não souberam ouvir.


segunda-feira, 2 de abril de 2012

Trincas

Na vida,

nos laços...

algumas coisas podem se quebrar,

e quando quebradas,

não voltam ao que eram antes.

Um cristal quando rachado

jamais será como antes.

Ainda que o consertem,

com cuidado esmerado,

com habilidades ímpares,

a trinca sempre estará lá.

Na vida, como cristais

algumas trincas imperceptíveis

vão se formando,

aumentando

e sem que as percebamos

terminam por quebrar

ou danificar aquilo

que não deveria ser danificado.

Olhos atentos,

ouvidos abertos...

nada adianta se a sensibilidade,

o que diferencia um ser do outro,

não estiver pronta

para entender

que tais trincas,

antes que aumentem de tamanho

e danifiquem o que não

poderia ser danificado,

precisam ser cuidadas,

enquanto ainda há tempo,

enquanto ainda são imperceptíveis

a olhos nus,

sentidas apenas pelo sentir

que une as pessoas...

É nestes momentos,

quando o tempo

para de correr apressadamente,

que algo pode ser feito,

que é possível fazer

desaparecer a trinca insistente,

usar o coração,

para fazê-la deixar de existir e,

ao contrário da quebra,

trazer o fortalecimento dos laços.



domingo, 1 de abril de 2012

Palavras Mudas

Quando as palavras

secam na boca e na garganta,

cansada de expressá-las,

é momento de ouvir o silêncio.

O silêncio nos fala muito

(quando sabemos ouvi-lo),

quando refletimos sobre

o que ele nos traz.

O silêncio das palavras mudas,

em bocas cerradas,

refletem o cansaço

da língua que as articulou...

este mesmo silêncio serve agora

de campo de cultivo

para as ideias há muito faladas

em terras e ouvidos áridos...

aridez que essas palavras,

outrora ditas,

algumas sem eco,

esperam ao menos

ter servido de adubo,

com a verdade nelas contidas.

Se a aridez de outrora

foi tocada pela vida

ali depositada pelas palavra ditas,

que elas possam fazer brotar os gestos

e as palavras cheias de vida,

de verdade, de sons para

desemudecer o silêncio

de bocas cerradas

e das palavras mudas.

sexta-feira, 23 de março de 2012

Sexta carta ao filho

Meu filho,

Hoje quero falar com você sobre caminhos e escolhas!

Em muitos momentos de nossas vidas nos vemos diante de uma encruzilhada com vários caminhos à nossa frente sem saber qual devemos escolher. Não há uma resposta para essa dúvida! Uma frase que ouvi há muito tempo me acompanha sempre. Sua autoria é incerta pois atribuem sua elaboração a muitos, entre eles Antonio Machado Ruiz. A frase é simples: “Caminhante, são teus passos o CAMINHO e nada mais; caminhante, não há caminho: faz-se o caminho ao andar.”. Acredito que essas poucas palavras traduzam a grandeza de nossas escolhas quanto a que caminhos seguir. É através de nossos passos que vamos construindo nosso caminho. Nos caminhos encontramos pedras, lama, perigos, alegrias, flores e um sem número de elementos que nos servem de pontos para avaliar se nossa escolha foi correta ou não.

Enquanto caminhamos surgem obstáculos e perigos que podem nos impedir de chegar ao fim desta caminhada ou ao encontro daquilo que objetivamos para nossa vida e por isso a escolha de caminhos deve ser muito bem pensada para que não nos arrependamos depois.

Se obstáculos são inevitáveis não poderemos fugir deles, mas poderemos nos precaver para não nos ferirmos neles. Se há buracos no caminho precisamos ficar atentos para não cairmos neles. Tombos fazem parte de nossa vida, mas não quer dizer que tenhamos que cair sempre. Cair tem que ser uma escolha e está intimamente ligado às outras escolhas de nossas vidas.

Ainda nos caminhos escolhemos aqueles que nos acompanharão e é aí que as coisas podem dar certo ou errado pois companheiros de caminhada nem sempre o são de verdade. Podem ser aqueles que caminharão ao nosso lado por um tempo, por algumas léguas mas que podem nos deixar na primeira encruzilhada ou se porventura não optarmos pelo mesmo caminho por eles escolhidos, caso firam nossos valores por exemplo. Outros serão companheiros para as festas e alegrias mas, faltando isso, não estarão sempre ao nosso lado. Podem ainda nos deixar para trás quando caímos ou nos ferimos precisando da ajuda física, emocional ou espiritual. Nestas horas somente poderemos contar com aqueles que verdadeiramente nos amam e compactuam os mesmos valores.

Há uma frase popular que diz “Diga-me com quem anda e te direi que és!”. É importante refletirmos sobre ela no sentido que não é por andarmos com aqueles que estão fora de nossos valores necessariamente teremos de ser como eles. As escolhas são individuais e quando pautadas em valores verdadeiros, firmemente enraizados em nossos seres, necessariamente não precisaremos nos perder. As águas fortes de um rio, caminhando rumo ao mar, passam por águas barrentas, pântanos mas seguem corajosamente em frente, sem que a contaminação as impeça de desaguar no mar, de alcançar seu objetivo maior.

Ao escolhermos um caminho, qualquer um deles, podemos ou não contar com aliados que realmente dariam a vida por nós. Esses aliados, no entanto, não são obrigados a nos seguir no caminho escolhido caso não seja um caminho baseado em seus valores também. Eles nos alertarão, insistirão para que repensemos e poderão até se cansar de fazê-lo tantas vezes quando não ouvimos de verdade, quando as palavras são apenas repetidas e se perdem ao vento por não fazermos dela elementos de nossas vidas. Aliados, no entanto, são valiosos em nossas vidas pois poderemos contar sempre com eles, irmanados por valores maiores refletidos em vidas únicas com objetivos semelhantes. Não vale a pena perdê-los!

Escolher é algo que depende apenas de cada um de nós e não necessariamente faremos as mesmas escolhas! Porém, a partir das escolhas feitas, precisaremos lidar com as perdas e os ganhos que elas nos trarão e por isso é tão importante pensarmos bastante antes de assumirmos este ou aquele caminho. Será que as perdas compensarão em relação aos ganhos? Será que as perdas poderão ser revertidas quando cairmos em si das escolhas feitas? Nem sempre! Algumas perdas, quando consolidadas, não oferecem a opção de retorno. Se escolhermos um caminho para solidão dos nossos passos, deixando de lado aqueles que realmente estão em nossas vidas poderemos deixar para trás uma vida que não terá volta e precisamos refletir sobre o peso destas perdas.

Talvez você esteja se perguntando se sempre fiz as escolhas corretas em minha vida. Lógico que não e algumas tive que amargar as consequências e as perdas que me trouxeram. Algumas puderam ser revertidas e outras, das quais me arrependo, não! Ainda erro e como todo ser humano seguirei errando mas assumi um credo pessoal ou um mantra que me alerta quando me deparo com alguma escolha muito importante em minha vida. A frade é de um xamã norte-americano chamado Don Juan e é assim: “Qualquer caminho é apenas um caminho e não constitui insulto algum – para si mesmo ou para os outros – abandoná-lo quando assim ordena o seu coração. (...) Olhe cada caminho com cuidado e atenção. Tente-o tantas vezes quantas julgar necessárias... Então, faça a si mesmo e apenas a si mesmo uma pergunta: possui esse caminho um coração? Em caso afirmativo, o caminho é bom. Caso contrário, esse caminho não possui importância alguma.” Posso te dizer que muitas de minhas escolhas se basearam neste julgamento e você é prova cabal disso.

Termino esta carta, meu filho, pedindo que além de refletir sobre as palavras anteriormente escritas, complete sua reflexão com a frase de Antoine de Saint-Exupéry, “Eis o meu segredo: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos. Os homens esqueceram essa verdade, mas tu não a deves esquecer. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.”.

Continuo te amando.

Um beijo,

Seu pai