segunda-feira, 20 de julho de 2009

Se erro...


Se erro

tentando acertar,

seria menor a culpa,

da fala maldita,

da hora desdita

do amor que magoa?

Ou seria o momento

de calar,

não falar para não magoar...

mas ainda assim,

ao calar o coração

que insiste em falar,

anular o amor

que questiona,

que quer ver crescer,

que se preocupa

que acredita

no ser ali,

em frente

às vezes reticente

que muitas vezes

se desconhece,

deixa de crer em si,

na própria força

e no amor

que une, ampara

briga e fala

por medo de perder,

medo de deixar para trás

o que une,

o que fortalece,

o que erra

buscando acertar,

na vã tentativa de

ajudar...

que mesmo errando,

insiste em continuar

a acertar,

mas entre erros e acertos

nunca deixa de amar.

Se erro

tentando acertar,

seria menor a culpa

pelo desejo de acertar?

Ou pelo simples fato

de, por ser humano,

tentar?...

Penso em você

Penso em você

no raiar do dia

no cair da noite,

na vida que me acolhe

e no sangue que pulsa

em meu ser.

Penso em você

a todo instante,

... ainda que diante

de incertezas...

penso em você.

Penso em você,

... esquecendo de mim,

do que me vai

na alma, na luz

do sol ou do luar.

Um pensamento basta

para que o dia resplandeça,

para que o sol tenha outro brilho,

ainda que a dor chegue

no fundo do coração,

da alma de quem pensa

e por pensar, sofre.

Penso em você,

em como quero ter-te

em meus braços,

em minha vida.

Penso em você,

da forma que não deveria

e sofro...

por pensar em você.

Ainda que a razão diga

o contrário,

para parar de pensar,

parar de sofrer e esperar

o coração continua impulsionando

a mente a pensar,

pensar em você.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Quero Sair

Quero sair

dessa prisão fétida

cheia de vermes

a apodrecer a vontade.

A vontade que sentia

não sei onde se encontra,

está perdida em algum lugar

da prisão que cresceu ao meu redor.

Quero sair

mas faltam forças,

algumas vezes

falta vontade.

O medo aprisiona a alma,

faz deixar de sonhar

o sonhador,

como se os sonhos

de outrora

não fossem mais possíveis

de existir,

como se o sol

não nascesse realmente

para todos,

como se a felicidade

não fosse possível.

Sinto-me preso,

na infelicidade

que preenche meu ser,

ofuscando o brilho

de novos amanheceres.

Quero sair,

mas tenho medo

de, saindo,

me perder ainda mais,

me prender ainda mais,

me afastar de mim

e me afastando de mim,

me afastar de você.



Desabafo


Tem dias que

o aperto na garganta

parece sufocar,

tirando todo o ar

dos pulmões que insistem

em respirar.

Dias em que as lágrimas

brotam dos olhos

como bocejos

de noites mal dormidas.

Vontade louca de gritar,

correr, fugir...

pra onde?

o que fazer?

respostas não chegam,

apertos no coração ferido

solitário, sozinho

sem esperanças

e sem vontade de seguir

rumo ao nada,

ao desconhecido

ao vazio

que insiste em preencher

o ser que sofre.

Preciso de você!

para preencher minha vida,

o que me falta

dia a dia, hora a hora...

pensamentos vem e vão

como o ar respirado,

como a lágrima salgada

que rola pela face,

trazendo-me o susto da solidão,

o medo de caminhar sozinho,

da não construção,

de uma viva vivida, sentida...

quando, olhando para trás

enxergo apenas a bruma

espessa e turva,

sem a certeza do que ficou,

do que foi feito

e do que foi verdadeiramente

sentido,

com sentido.


quinta-feira, 25 de junho de 2009

O Brincador

“Quando for grande, não quero ser médico, engenheiro ou professor.

Não quero trabalhar de manhã à noite, seja no que for.

Quero brincar de manhã à noite, seja com o que for.

Quando for grande, quero ser um brincador.

Ficam, portanto, a saber: não vou para a escola aprender a ser um médico, um engenheiro ou um professor.

Tenho mais em que pensar e muito mais que fazer.

Tenho tanto que brincar, como brinca um brincador, muito mais o que sonhar, como sonha um sonhador, e também que imaginar, como imagina um imaginador…

A mãe diz que não pode ser, que não é profissão de gente crescida. E depois acrescenta, a suspirar: “é assim a vida”. Custa tanto a acreditar. Pessoas que são capazes, que um dia também foram raparigas e rapazes, mas já não podem brincar.

A vida é assim? Não para mim. Quando for grande, quero ser brincador. Brincar e crescer, crescer e brincar, até a morte vir bater à minha porta. Depois também, sardanisca verde que continua a rabiar mesmo depois de morta. Na minha sepultura, vão escrever: “Aqui jaz um brincador. Era um homem simples e dedicado, muito dado, que se levantava cedo todas as manhãs para ir brincar com as palavras.”


Alváro de Magalhães, escritor português

O Moldador de Palavras



O poeta é um moldador!

Molda com suas tintas,

palavras ditas e distintas

combinando-as umas e outras

com a voz de sua alma.

Como o escultor

ao moldar a argila

o bronze, o ferro, a areia

as palavras tomam formas distintas

daquelas de onde se originaram.

Nada tem o mesmo sentido

na poesia,

na modelagem de palavras

pelo olhar sensível,

pelo coração do poeta.

O poeta é um brincador,

brinca tanto e tantas vezes

com as palavras

que elas se embaralham e

nos embaralhares de suas letras,

tornam-se outras palavras,

outros sentidos

outras lembranças,

ainda que palavras...

Ainda que palavras sejam ditas,

escritas, sentidas ou ouvidas,

nas tintas e nos lábios

do poeta que

brinca, brincando com as tais;

elas nunca serão as mesmas,

pois passaram pelo cerne da alma,

da alma de um poeta

que escreve

e ao escrever sonha,

sente e dá vida

a tudo ao seu redor

numa constante

escultura de palavras

sem perceber,

que com sua poesia

modela o mundo.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Por causa do trigo (Ao Pequeno Príncipe)

Da janela de minha sala

ainda que na metrópole empoeirada

cinzenta dos motores

vejo um campo de trigo dourado.

Olhando pela janela,

o ouro do trigo me traz as lembranças

da raposa que me cativou,

que me ensinou tanto,

a quem ensinei,

e que sofreu ao me ver partir

ou me fez sofrer por sua partida.

As lágrimas que brotaram de nossos olhos,

regaram o trigal, dando-lhe força e viço,

fazendo dourar ainda mais

a imagem de nossas lembranças;

se parti e fiz chorar quem me cativou,

chorei pela sua partida também,

imaginando que só prejuízos nos deixamos.

Mas por causa do trigo,

aprendemos que os ganhos

foram maiores que as perdas.

Tudo por causa do trigo,

do trigo dourado

que de minha janela observo,

lançar-se de um lado para o outro

na brisa leve e perfumada

que sopra, trazendo-me o perfume dos trigais.

Por que mentes?

Dirão alguns...

Não há trigo para ser visto

de sua janela!

A estes que não vêem o trigo

direi com ares de poeta e louco

que não há mentiras,

o trigo está lá para ser visto

pois assim como

o verdadeiro amor,

o essencial é invisível aos olhos,

pois só se vê bem

com os olhos do coração.